Por Álvaro Ornelas*
O FUTURISMO,
ou seja, o turismo com a força de tornar
o mundo melhor e mais dinâmico de forma sustentável, não é
somente uma utopia é de fato uma crença de que existe forma de
entender e impactar melhor um destino turístico e seu “destino”|
“missão”.
De
fato quando viajamos, nossas mentes se abrem. Aprendemos sobre outras
pessoas, culturas, ideias e ambientes. Acima de tudo, aprendemos
sobre nós mesmos. As viagens podem fornecer uma nova perspectiva que
desafia os viajantes a pensar de forma diferente e a mudar certos
comportamentos. Ao longo do caminho, nós criamos memórias que
levaremos para o resto de suas vidas. E isto é impactante demais em
uma existência humana.
Muitas maneiras, os visitantes também podem agregar valor aos
lugares que visitam. Eles podem se conectar com pessoas que pensam
como você. Podem trazer diversidade, perspectivas ou uma nova troca
de ideias. Eles podem decidir se mudar para um lugar, estudar lá ou
abrir um negócio. Eles podem aumentar a reputação de marcas e
produtos locais. Eles podem ser uma razão para uma maior proteção
ambiental e cultural. Eles podem ser a razão da infraestrutura e
comodidades que os moradores desfrutam. Eles também podem trazer
capital intelectual, social, econômico ou – ainda mais importante
– o que Pierre Bourdieu (2013) chama de capital simbólico** para
os moradores de um destino. É bom viver em um lugar que é bem
conhecido ou popular.
Dado
esse potencial para o bem, é extremamente alarmante que em alguns
lugares esteja acontecendo exatamente o oposto. Em vez de melhorar a
qualidade de vida, o turismo tornou-se, em algumas circunstâncias,
disruptivo e destrutivo. Imagens de superlotação passaram a
representar muitos problemas relacionados à sustentabilidade e
insatisfação dos moradores em nossos meios de comunicação.
Embora
a realidade seja muitas vezes mais sutil, o turismo muitas vezes
carrega muita responsabilidade. Alguns destinos populares são amados
até a morte, enquanto outros sofrem de má gestão. Muitos livros e
artigos foram escritos sobre as causas, efeitos e impactos da
superlotação, o que mostra que muitos outros fatores estão em
jogo. Os impactos resultaram em uma reação significativa contra o
turismo de residentes em lugares ao redor do mundo.
Temos
a responsabilidade como “economia do turismo” de levar isso muito
a sério.
Alguns
dos principais pensadores da “economia do turismo”, defendem uma
nova abordagem radical para o turismo como um todo. Essa mudança
está frequentemente interligada com os desafios que enfrentamos
globalmente, incluindo gentrificação, crises habitacionais, a
crescente lacuna entre ricos e pobres e mudanças climáticas.
Aqueles
líderes (no setor público ou iniciativa privada) defendem que um
sistema econômico baseado no crescimento contínuo não é
sustentável e que deve ser substituído por sistemas que levem a uma
economia regenerativa, onde o sucesso é medido em equilíbrio com
fatores ambientais, sociais e culturais. Esses princípios se alinham
com os argumentos de Kate Raworth (2017) em seu livro Economia Donut
(vale a pena a leitura).
A OSN CONSULTORIA acredita que
é preciso sair de um sistema econômico puramente baseado no
crescimento. Estamos mais conectados por um ecossistema global do que
por uma economia global. Temos a responsabilidade moral de proteger
os lugares que representamos. Se esse argumento não for suficiente,
precisamos proteger os ativos que, em última análise, sustentam a
economia do turismo. Trocar nossa qualidade de vida ou ativos
ambientais por dinheiro não é apenas moralmente errado, também não
faz sentido comercialmente, seria como consumir o seu próprio
estoque.
Ponto
de partida rumo à mudança é uma aspiração, mas muitas vezes vem
com pouca especificidade. O foco de municípios e empresa do turismo
está na promoção, no marketing , na comunicação de suas
referências e especificidades. Com o foco no marketing, mesmo que
muito feito não se pode mudar um sistema econômico global. Mas pode
fazer muito trabalhando dentro de um ecossistema de negócios
turísticos e assim localmente contribuindo para a sonhada mudança.
Vi,
na prática, isto acontecer no município de Bento Gonçalves no Rio
Grande Sul, em 2009, quando era um sub-produto da “locomotiva do
turismo nacional - Gramado”, e atualmente (2022) é um destino
turístico com foco específico e tem uma economia do turismo focada,
dedicada e integrada com outras empresas de diferentes “indústrias”
(no caso, moveleira e construção civil). Exemplo prático de como
transformar a economia de forma sustentável e de forma inovadora.
Para esse fim, precisamos desafiar a suposição de que o crescimento
econômico é sempre o único objetivo. Em vez disso, precisamos
olhar além dos objetivos econômicos e incluir objetivos ambientais,
sociais e culturais, porque o crescimento econômico é um meio para
atingir um fim. No caso de Bento Gonçalves é promover experiências
e fazer vale o seu slogan
de comunicação no mercado turístico – “Pura Inspiração!”.
Defina
o fim e você entenderá os meios. Identificar e medir esses
objetivos adicionais é um primeiro passo importante para gerenciar o
crescimento econômico de forma responsável. Para operar uma
economia do turismo viável, você precisa do apoio de seus
moradores. Ian Thomson e Robert Boutilier (2011) chamam de LSO -
Licença Social para Operar em seus artigos que trazem exemplos
práticos do funcionamento e das estratégias usadas para “obter”
a licença social de operação de um destino turístico. Se o
município recebe esta licença de seus residentes significa que a
sinergia entre pessoas e empresas estarão vibrando no mesmo sentido,
de mudar, por meio do turismo uma economia local. Cada lugar é
diferente (ainda bem que é) e, posteriormente, cada licença também.
Como uma licença social é simbólica, ela não vem com limites
específicos. No entanto, acredito que se possa analisar onde estão
os limites e encontrar maneiras de afetá-los de forma orgânica ao
processo já iniciado.
Para
aqueles que não acreditam que seu “Destino” (duplo sentido aqui)
esteja perto do limite superior, a pressão do visitante muitas vezes
pega os destinos de surpresa. Todo lugar tem um ponto de inflexão.
Esse princípio de crescimento exponencial pegou muitos lugares de
surpresa. Como exemplo vivenciei a Praia de Canavieiras em
Florianópolis, exemplo típico de como a sucessão de lideranças
públicas fracas e sem entendimento pleno sobre aceleração
econômica “matou” a praia como atrativo Premium do Turismo de
Sol e Praia e de Eventos Esportivos Internacionais na década de 80.
Somente agora em 2020, sua faixa de areia foi alargada, porém ainda
não tem sistema de esgoto adequado. Triste e caro demais para
“reinventar”.
Para
saber o que fazer, você precisa entender onde estão os limites da
sua licença social. Seus residentes são as únicas pessoas que
podem lhe dizer esses limites. Exige conversas, diálogos, eventos
locais e estratégia de comunicação constante. O “inner-marketing”
para manter acesso a economia do turismo para aqueles moradores que
“não entenderem o valor do turismo”, mas ainda não foram
apresentados de como eles participarão da economia do turismo se
concederam a LSO local.
Se
acende o sinal de alerta quando se tem forças contrárias a mudança
e ao crescimento econômico sustentável proveniente da economia do
turismo. Talvez eles entendam perfeitamente, eles simplesmente não
gostam de onde está indo. Identificar e comunicar é o ponto Zero de
qualquer estratégia de aceleração econômica de território.
Não
se pode mais se esconder atrás da velha e cansada linha de que
“nosso papel é apenas promoção”. Esses dias acabaram. Muito
pouco se tem falado sobre desenvolvimento de destinos por um tempo.
Bem, agora é um bom momento para levar isso a sério, o mundo
pós-pandemia trouxe uma “força” nas LSO pois o sentido de
existência no planeta sofreu impactos em todas as classes sociais o
que impacta diversas industrias, mas certamente a economia do turismo
foi a mais impactada durante os dois anos de pandemia, mas certamente
é a qual tem MAIS VALOR após.
Então
deixar os residentes falarem quais são seus sentidos de vida, de
viver. O que qualidade de vida significa para cada um hoje.
Compreender
como os ativos ambientais e culturais podem sustentar, crescer e
florescer sob o turismo. Como os visitantes podem agregar valor a um
lugar em vez de tirar valor. Esta é a essência da gestão de
destinos. É muito diferente do que você está acostumado. Requer
novas capacidades, pesquisas, processos, colaboração, estratégias,
sistemas e táticas.
Às
vezes, os moradores dizem todas as coisas certas, mas não fazem
(quase) nada. O que precisamos é de ação real. Caso contrário, um
dia, sua “Praia de Canasvieiras” ficará imaginando o que
aconteceu, tanto como profissional de turismo quanto como morador do
lugar que representa. Isso não é um fardo, é uma oportunidade real
de re-significado local para um futuro mais brilhante no mercado de
forma geral.
Pense no impacto positivo que
você pode
ter em sua
comunidade como organização (púbica ou privada) e como indivíduo
que se preocupa profundamente com as pessoas e todos ecossistemas
(natural e econômicos) ao seu redor.
Acelerar
territórios é o que fazemos, ajudar na obtenção da LICENÇA
SOCIAL
DE OPERAÇÃO de cada município ou região para seu futuro no
turismo, seu próprio FUTURISMO.
Suce$$o
!!!
💪🏻🎯
*Álvaro
Ornelas é consultor especializado em aceleração territorial, atua
no mercado imobiliário e turístico do Brasil. É diretor do Grupo
Salomão. Um dos thinktank
da
Essência Náutica do Brasil, Fundador e Presidente da ANCORA
(Agência Nacional de Cooperação em Redes de Apoio à Economia do Brasil do
Brasil) também com experiência no desenvolvimento do cluster
de
produção náutica em Santa Catarina e de regiões turísticas em
todo no Mato Grosso e Brasil. Idealizador do conceito SMART
SEA
criado
por sua empresa de consultoria. É também sócio em marinas no
Brasil e em condomínios inteligentes.
**Capital
Simbólico: O
capital simbólico refere-se a um: “grau de prestígio, celebridade
ou honra acumulados e é fundado em uma dialética de conhecimento
(connaissance) e reconhecimento (reconnaissance)” (Bourdieu, 1993,
pág. 7). Em Distinção (1984), Bourdieu refere-se ao capital
simbólico como: “a aquisição de uma reputação de competência
e uma imagem de respeitabilidade e honradez...” (1984, p. 291).
Bird e Smith (2005) observam a convergência entre Bourdieu e a
teoria do consumo Veblen (1994) em que uma aparente falta de
interesse em construir capital econômico na forma de consumo
conspícuo ou generosidade atinge os maiores lucros em termos de
capital simbólico. Há um custo para construir capital simbólico em
termos de tempo, riqueza ou energia.
Referências
Bibliográficas:
BAKKER,
Willian. Destination Think. 2019.
BOURDIEU, Pierre.
Symbolic Capital and Social Classes. Journal of Classical Sociology.
Ed Sage, Londres, 2013.
BOURDIEU, Pierre.
DELSAUT, Peter. Le couturier et sa griffe: contribution à une
théorie de la magie. Actes de la recherche en sciences sociales.
Paris, 1975.
DUBY, G. The Three
Orders: Feudal Society Imagined. University of Chicago Press.
Chicago, 1982.
GOFFMAN, E; The
nature of deference and demeanor. American Anthropologist 58: pg
473–502. 1958.
RAWORTH, Kate.
Doughnut Economics: Seven Ways to Think Like a 21st-Century
Economist. ISBN-13 9896443475,
2017.
THOMSON,
Ian. e BOUTILIER, Robert. Social license to operate. In P.Darling
(Ed.), SME Mining Engineering Handbook (pp. 1779-1796). Littleton,
CO: Society for Mining, Metallurgy and Exploration, 2011.
Foto
Imagem:
Web
Adobe Image @ www.destinationthink.com
Acervo OSN CONSULTORIA, Grupo de Turismo de Balneário Camboriú, 2009.